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O silêncio também tem voz

Nas páginas deste blog, desvendo o meu universo literário. Entre linhas e versos convido-o a mergulhar nas emoções e reflexões que habitam nas minhas palavras. Este é o espaço onde as ideias ganham vida.

O silêncio também tem voz

Nas páginas deste blog, desvendo o meu universo literário. Entre linhas e versos convido-o a mergulhar nas emoções e reflexões que habitam nas minhas palavras. Este é o espaço onde as ideias ganham vida.

Ninguém é à prova de poemas

28.11.25 | RF

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Há palavras que chegam como lâminas finas: não fazem estrondo, não deixam aviso, mas abrem sulcos fundos onde ninguém vê. Fingimos que somos feitos de ferro, que nada nos toca, que a língua dos outros não encontra brechas. Mas a verdade é outra: ninguém é à prova de poemas — nem dos belos, nem dos cruéis.

Porque cada frase lançada no ar procura um corpo onde pousar. Às vezes pousa no nosso. E então perguntamos em silêncio: porquê esta dor tão leve e tão certa? Porque é que uma simples frase consegue permanecer mais tempo do que a memória dos gestos? Talvez porque, no fundo, somos feitos de palavras. E aquilo que fere é apenas o que nos reconhece por dentro, mesmo quando tentamos negar.

Resta-nos esta inquietação: que palavras deixamos entrar e que palavras deixamos sair? E será que sabemos, realmente, o peso que cada uma carrega?

 

Imagem: Pixabay

Feridas sem fatura

26.11.25 | RF

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A dor emocional não tem etiqueta de preço nem prazo de validade. Não se mede em horas, nem se paga com comprimidos. É uma ferida invisível que insiste em pulsar mesmo quando o corpo já não sente nada. A dor física avisa, grita, obriga-nos a parar; a emocional, essa, instala-se em silêncio e reorganiza a casa por dentro sem pedir permissão.

Há dores que se pagam com tempo, outras com coragem, outras ainda com a capacidade de nos olharmos ao espelho sem desviar os olhos. E, mesmo assim, nunca sabemos se já quitámos a última prestação. Dura o que tiver de durar — um sopro ou uma eternidade — mas nenhuma é em vão. Cada uma molda, purifica, transforma.

No fim, talvez o verdadeiro custo da dor emocional seja o caminho que nos obriga a percorrer: aquele que nos leva a conhecer quem realmente somos quando tudo o resto cai.

 

Imagem: Pixabay

O dia que parou por dentro

24.11.25 | RF

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Quando a porta se fechou atrás dela, mesmo sabendo que era apenas por algum tempo, o mundo pareceu inclinar-se ligeiramente, como se tivesse perdido o seu centro de gravidade. A casa ficou cheia de um silêncio estranho, demasiado grande para caber nas paredes que antes vibravam com presença dela.

O quotidiano, esse velho companheiro obediente, deixou de fazer sentido. O café da manhã soube a nada, as horas avançaram sem rumo e até os pequenos rituais — aqueles que sempre seguraram a vida — tornaram-se sombras do que eram. Faltava-lhe o riso dela, a energia que deixava nas coisas, o eco das conversas.

Ver uma filha partir é sempre um rasgar suave, quase impercetível, mas que toca o fundo da alma. Sabemos que vai para o seu caminho, para o que a faz crescer, porém há uma parte de nós que fica suspensa no ar, à espera do regresso.

E é nessa espera que o coração aprende a bater noutra cadência, mais lenta, mais funda, até ao dia em que a porta se abrirá de novo e tudo voltará ao seu eixo — mesmo que por instantes, mesmo que por pouco tempo.

O Norte que me corre nas veias

22.11.25 | RF

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No Norte cozinha-se com alma — não apenas com mãos habituadas ao forno e ao lume, mas com memórias, com afetos, com uma generosidade que se serve sem medir.

E não será essa frontalidade, essa arte de bem receber e de fazer da mesa um lugar sagrado, aquilo que verdadeiramente engrandece um povo?

E que dizer das tascas? Esses pequenos templos onde o tempero é verdade, onde o tacho fala mais alto do que qualquer discurso, onde a comida chega à mesa quente, farta e honesta. Quem já provou uma patanisca feita com amor, um caldo verde da panela da avó, ou um rojão que quase conta histórias ao paladar, sabe que ali vive a essência do Norte. É nas tascas que se sente o pulsar do povo, a simplicidade que alimenta a alma e a tradição que nunca se perde.

Por isso, sim, tenho orgulho em ser nortenho. Orgulho no modo como caminhamos de cabeça erguida, como defendemos o que somos, como cozinhamos, acolhemos e falamos — sempre de verdade. Porque o Norte não é apenas um lugar: é uma forma de estar que me corre nas veias.

Manual do assaltante incompetente:

Capítulo Penafiel

21.11.25 | RF

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Nem todo herói usa capa, e nem todo ladrão sabe roubar. Em Penafiel, um aspirante a fora-da-lei decidiu tentar a sorte com um assalto à mão armada — mas esqueceu-se de um detalhe técnico: saber intimidar. Resultado? Foi manietado pelos próprios proprietários, que provavelmente nem precisaram levantar a voz.

A classe dos ladrões, já tão mal vista, tem agora mais um motivo para se envergonhar. Porque até para ser criminoso é preciso talento, sangue-frio e, no mínimo, um plano que dure mais de cinco minutos. Este senhor, ao que parece, confundiu “assalto” com “autoentrega”. Entrou armado e saiu algemado, com direito a humilhação gratuita e manchete nacional.

Se houvesse um sindicato dos assaltantes, já estaria em processo disciplinar. Afinal, há reputações a manter. E como diria qualquer vilão de filme: “Se é para falhar, que seja com estilo.” Este nem isso conseguiu.

 

Imagem: Pixabay

Quando a noite acendeu o meu caminho

20.11.25 | RF

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Sob o céu imenso de Chiang Mai, quando a noite se abriu em estrelas, ergui entre as mãos a lanterna que guardava tudo o que não podia dizer em voz alta. À minha volta, centenas de luzes tremulavam como pequenos corações a despertar, mas foi naquele instante — ali, ao lado da minha linda feiticeira — que senti o verdadeiro sentido de libertação.

Quando a chama tocou o papel e a lanterna começou a subir, imaginei que ela levava com ela cada sombra que se tinha colado à minha vida: os medos antigos, as dores que não confessei, os pesos que trago pelos meus e por aqueles que caminham comigo à distância — amigos, leitores, almas irmãs. Desejei-lhes luz, serenidade, abrigo. Desejei que cada um encontrasse o caminho onde a alma respira mais livre.

E assim, lanterna após lanterna, deixei partir tudo o que já não me pertencia. O céu encheu-se de esperança e, por um breve momento, senti-me parte de algo maior — de um fôlego de renascimento que beijava a noite inteira.

Quando a última lanterna desapareceu no escuro, percebi que não era apenas o mundo que se iluminava: era eu também. E levei comigo a certeza de que a luz que libertamos pelo bem dos outros acaba sempre por encontrar o caminho de volta até nós.

Crónicas da casa de banho

19.11.25 | RF

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Quem diria que um dia haveria de chegar o Dia Mundial do WC — a verdadeira celebração de um templo onde Portugal, silenciosamente, medita, filosofa e faz scroll nas redes sociais.

Afinal, somos um povo que discute obras públicas, mas que vibra mais com a inauguração de uma casa de banho limpa do que com uma autoestrada nova. Nada nos orgulha tanto como um WC impecável: mosaico sem manchas, torneira que não pinga e, sobretudo, o Santo Graal da pátria — o rolo de papel higiénico intacto, gorducho, quase majestoso, digno de ser exibido como troféu.

Há quem diga que os portugueses partilham uma paixão inexplicável por este objeto. Talvez seja porque, num país onde tantas coisas falham, o papel higiénico é das poucas certezas que ainda sobra. Redondo, macio e sempre pronto para nos ajudar a resolver… os grandes problemas da vida.

E assim se celebra mais um dia em que o mundo olha para o WC com espanto, enquanto nós, portugueses, sorrimos com aquele ar de quem sempre soube que este era, afinal, o verdadeiro centro civilizacional da humanidade. Afinal, não há nada mais democrático do que uma boa ida à casa de banho — e nada mais português do que falar disso com orgulho.

 

Imagem: Pixabay

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