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O silêncio também tem voz

Nas páginas deste blog, desvendo o meu universo literário. Entre linhas e versos convido-o a mergulhar nas emoções e reflexões que habitam nas minhas palavras. Este é o espaço onde as ideias ganham vida.

O silêncio também tem voz

Nas páginas deste blog, desvendo o meu universo literário. Entre linhas e versos convido-o a mergulhar nas emoções e reflexões que habitam nas minhas palavras. Este é o espaço onde as ideias ganham vida.

O labirinto das máscaras

15.01.26 | RF

Quem são estes seres que habitam o silêncio do vácuo e preferem a glória das sombras ao calor da praça pública? O que move a mão que tece a intriga sob o manto do anonimato, senão o medo profundo de se descobrir vulnerável perante o olhar do outro?

É um exercício exaustivo, este de conspirar na penumbra. Pergunto-me: quando o rosto se esconde atrás de um pseudónimo ou de uma intenção velada, o que resta da identidade original? Será que a conspiração é, na verdade, um grito desesperado de quem não encontra em si as peças necessárias para formar um ser humano inteiro?

Viver na sombra é abdicar do risco da luz — e, sem risco, não há crescimento.

Talvez a maior tragédia destes arquitetos do escuro não seja o dano que causam, mas a vida que não vivem. Ao negarem a própria transparência, negam a possibilidade de serem amados pelo que são, e não pelo que fingem ser. Não será o momento de pousar as armas do invisível e arriscar a beleza de ser, simplesmente, um humano imperfeito, mas inteiro?

 

Imagem: Pixabay

A guerra vista do sofá

12.01.26 | RF

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Nos últimos anos, a Ucrânia tem resistido com coragem à invasão russa, e nós, do lado de cá, acompanhamos a luta com indignação e fervor. Mudámos as fotos de perfil nas redes sociais, enchemos as ruas em manifestações, partilhámos artigos e vídeos, convencidos de que o nosso apoio moral tem peso no desenrolar do conflito. Mas há uma questão incomoda que poucos se atrevem a fazer: Quantos de nós estariam dispostos a ir para a linha da frente?
 
É fácil ser herói à distância. Comentar e criticar estratégias militares na rede X, exigir mais apoio dos governos ocidentais, prometer “solidariedade incondicional” – tudo isso custa pouco. Mas quando se trata de passar das palavras à ação, a conversa muda de tom. Afinal, quem, entre os mais fervorosos apoiantes, estaria disposto a largar o conforto de casa, o salário fixo e os jantares de fim de semana para empunhar uma arma e lutar?
 
A verdade é que a nossa relação com a guerra é, em grande parte, virtual. Defendemos a causa ucraniana com a mesma intensidade com que torcemos por um clube de futebol ou discutimos a mais recente série da Netflix. E se alguém sugere um passo além do ativismo de sofá, rapidamente surgem as desculpas: “Não sei manusear uma arma”, “Tenho responsabilidades aqui”, “O que faço online também ajuda”.
 
Claro que não se pode exigir que todos os simpatizantes da causa ucraniana se alistem na Legião Internacional. Mas há uma hipocrisia latente na forma como exigimos sacrifícios dos outros sem estarmos dispostos a partilhar o peso. A guerra, para nós, é um espetáculo indignante, mas distante. Para os ucranianos, é uma realidade onde cada dia pode ser o último.
 
Se o nosso apoio se limita a hashtags e declarações inflamadas, talvez devêssemos ter um pouco mais de humildade antes de dar lições sobre coragem e resistência.
 
Imagem: Pixabay

A vigília do invisível

09.01.26 | RF

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Há um mal que não dorme. Não porque seja incansável, mas porque sabe o valor da espera. Instala‑se nos cantos escuros da vida, onde ninguém olha duas vezes, e lá permanece, paciente como quem sabe que o tempo trabalha sempre a seu favor. Não precisa de ruído para existir; basta‑lhe a distração humana, essa brecha que abrimos quando acreditamos que tudo está finalmente em paz.

O mal que espera não é o mais feroz, mas o mais persistente. Observa, recolhe, aprende. E quando encontra terreno fértil — um temor, uma dúvida, uma ferida antiga — germina sem pressa, como se cada gesto seu fosse parte de um plano maior. A sua força não está no ataque, mas na constância.

É imperioso manter a vigilância interior acesa, mesmo nos dias tranquilos. Porque o mal que não dorme não teme a luz; teme apenas ser visto antes de se tornar inevitável.

 

Imagem: Pixabay

Anatomia de um coração incompleto

06.01.26 | RF

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Trago buracos no coração como quem traz janelas partidas: deixam entrar o frio, o ruído do mundo e uma dor sem nome. Não sangram, mas doem de outra forma — uma dor funda, paciente, que se instala e aprende a morar comigo. Há dias em que tento ignorá-los, enchendo o peito de gestos, palavras e silêncios bem arrumados. Mas os buracos não se enganam; sabem distinguir o que é verdadeiro do que é apenas remendo.

Às vezes penso que foram abertos por ausências, outras por excessos. Há buracos que nasceram do amor, outros da perda, outros ainda daquilo que nunca chegou a ser. Cada um tem o seu peso específico, a sua memória, o seu eco. E é esse eco que dói mais: o som do que falta a repetir-se por dentro.

Não sei como se tapam buracos no coração. Desconfio de quem diz saber. Talvez não se tapem; talvez se aprendam a contornar, a respeitar, a carregar com alguma dignidade. Mas se um dia descobrir o segredo — se houver um gesto, uma palavra ou um silêncio capaz de fechá-los sem mentir — serei o primeiro a dizer-vos. Até lá, sigo com o coração imperfeito, batendo apesar de tudo, como quem insiste em viver mesmo com falhas no peito.

Corações calejados não sangram

02.01.26 | RF

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Há calos que não se veem, mas pesam. Não nascem do trabalho das mãos, mas do atrito contínuo da vida contra o peito. Cada desilusão, cada perda mal chorada, cada palavra que ficou por dizer vai criando uma camada a mais no coração, como se ele precisasse de se proteger do mundo.

No início, esses calos parecem úteis. Amortecem a dor, ensinam-nos a resistir, dão-nos a ilusão de força. Mas, com o tempo, o que era defesa transforma-se em prisão. O coração endurecido deixa de sangrar e, sem perceber, deixa também de sentir. Já não treme com a esperança, já não se comove com a ternura, já não reconhece o milagre simples de um gesto sincero.

Ainda assim, há uma salvação possível. Os calos do coração não se quebram com violência, mas com cuidado. Uma disponibilidade verdadeira, um perdão inesperado, um amor que chega sem exigir nada podem, pouco a pouco, devolver-lhe a sensibilidade. E quando isso acontece, dói outra vez, mas é uma dor viva, fértil, humana.

Porque um coração sem calos pode sofrer mais, é verdade. Mas um coração demasiado calejado corre o risco maior de não viver.

 

Imagem: Pixabay