Quantos livros cabem no vazio?

Há quem entre no ano novo com resoluções solenes e uma calculadora na mão: este ano vou ler cinquenta livros. Cinquenta. Nem quarenta e nove, nem cinquenta e um — cinquenta, como se a leitura obedecesse à lógica das prateleiras do supermercado ou à balança da casa de banho. Livros pesados valem mais? Mil páginas contam em dobro? Um conto fino deveria pedir desculpa por existir?
Lê-se como quem corre uma maratona imaginária, olhos a escorregar pelas linhas, páginas viradas com a urgência de quem teme falhar o cronómetro. No fim, ergue-se o troféu invisível: a lista cumprida. Mas e o resto? O que ficou daquele livro além do número acrescentado à estatística? Que ideia mudou, que ferida abriu, que silêncio incomodou?
A leitura transformada em meta aritmética perde o essencial: o abalo. Um livro não é um haltere para exibir nem um quilómetro para registar numa aplicação. É um lugar onde se fica — às vezes dias, às vezes anos. Ler não é um contrarrelógio; é um desvio. E, convenhamos, orgulhar-se apenas da quantidade é como gabar-se de ter comido muito… sem nunca ter sentido o sabor.
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